[Crítica] A Noiva (2026)
A Noiva!, dirigido por Maggie Gyllenhaal, é baseado na obra clássica de Mary Shelley e protagonizado por Jessie Buckley no papel da Noiva/Dai e Christian Bale como o monstro de Frankenstein. Maggie Gyllenhaal entrega uma produção bastante interessante que transita por diversas temáticas para fugir do padrão habitual das adaptações. O longa passeia entre o romance, o terror e a investigação, além de alternar entre uma estética de época e uma linguagem visual mais convencional. A personagem presente nas sequências de época funciona quase como se fosse a própria Mary Shelley, reforçando a ligação com o material original.
Logo no início, a narrativa mostra o falecimento da protagonista. Antes de morrer, durante um momento de transe e possessão no qual parece não ter controle da situação, a personagem revela a identidade do chefe da máfia local. A fala surge de maneira abrupta, como se uma força externa estivesse falando por meio dela. A atriz Jessie Buckley entrega um verdadeiro show de sotaques ao misturar o inglês americano e o britânico de forma rápida, demonstrando essa fragmentação psíquica antes da morte do seu corpo original.
A partir desse ponto, o enredo muda de foco para acompanhar a chegada de um homem misterioso que busca a doutora Euphronious, interpretada por Annette Bening, atraído por suas pesquisas sobre a reanimação de tecidos mortos. No papel de Frankenstein, Christian Bale entrega uma atuação marcante ao interpretar uma criatura vivida e centenária que enfrenta a eterna solidão na busca por alguém como ele. Após convencer a cientista a ajudá-lo, o corpo da jovem moça é resgatado para o ritual. Ao despertar confusa, a Noiva é enganada pelo monstro, que mente ao afirmar que os dois eram casados e que ela apenas havia sofrido um acidente.
A convivência inicial transforma-se em uma espécie de romance construído de forma gradual. Frankenstein ensina a Noiva a viver a partir das memórias que ele mesmo inventa, levando-a frequentemente a sessões de cinema para assistir a musicais estrelados por um ator popular, papel de Jake Gyllenhaal, cuja figura manteve acesa a esperança da criatura ao longo das décadas. Essa dinamicidade se estende até momentos de descontrole, como quando o casal visita uma festa caótica de luzes e música pulsante. No local, a diversão se transforma em perigo quando a protagonista é perseguida por homens violentos, forçando Frankenstein a intervir e eliminar os agressores para garantir sua segurança.
O incidente dá início às investigações conduzidas por um detetive vivido por Peter Sarsgaard e por sua assistente, interpretada por Penélope Cruz, que se torna a verdadeira força motriz da busca. Paralelamente, em uma das viagens do casal, eles encontram o ator dos musicais. Em meio à tensão do encontro e a um novo surto estilizado onde o elenco começa a dançar, a polícia cerca o local. Ao tentar salvar o companheiro, a Noiva faz o ator de refém e profere um discurso contundente sobre a proteção policial à máfia, o menosprezo histórico contra as mulheres e a forma como vozes femininas foram sistematicamente silenciadas ao longo do tempo.
A partir desse momento, a obra passa a girar em torno da emancipação feminina e da crítica social. A protagonista deixa de ser apenas uma criação para assumir uma posição mítica, tornando-se uma espécie de símbolo de revolução para outras mulheres. Ao mesmo tempo, o arco investigativo conduzido pela personagem de Penélope Cruz reforça as conexões entre a polícia, o crime organizado e o patriarcado.
No fim, A Noiva! se consolida como um filme muito interessante por conta de sua direção ousada e autoral. Maggie Gyllenhaal combina conceitos de romance, terror, musical e investigação para oferecer uma visão ampla e política sobre a obra de Mary Shelley, revisitando esse universo de ficção sob uma perspectiva contemporânea e provocadora.




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